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Tudo a Meias

Histórias que chegam ao telhado. Agora também nas 'Netherlands'.

Decreto da não autossuficiência humana

por tudoameias, em 18.04.13
Grupo de pessoas

"Relationships Are More Important Than Ambition"- diz o título do artigo assinado por Emily Smith da The Atlantic que li recentemente. Finalmente, alguém me dá razão!

Tenho pena (várias vezes tenho pena) de não ser mais desprendida, não propriamente nas relações, mas no espaço que ocupo enquanto ser. A minha casa, a minha rua, o meu escritório, o Porto, o Spring (só sabe quem por lá anda), a casa dos amigos são espaços demasiado presentes na minha vida. Isto faz com que me prenda às minhas raízes.

Por outro lado, ao mesmo tempo, nunca fui muito ambiciosa pelo menos a pensar nos voos altos que a minha carreira me poderia trazer se fosse mais aguerrida. Aceito o que a realidade me dá. Com honestidade e alguma intranquilidade, por vezes. Digamos que a minha ambição é a minha intranquilidade e o meu perfecionismo perante as coisas. Que outra opção me resta?

Mas voltemos ao artigo. Rod Dreher deixou a pequena cidade onde nasceu no Luisiana para perseguir um sonho: o jornalismo. A sua irmã, em contraponto, casou e constituiu família na sua terra-natal, e ambos não compreendiam o porquê das decisões de cada um. Até que um dia, foi diagnosticado a Ruthie um cancro no pulmão em fase terminal. A professora primária adorada por todos na pequena comunidade durou pouco mais de um ano e meio.

Os gestos de afeto demonstrados por todos os habitantes da comunidade para com Ruthie, enquanto viva e já depois de morta, foram como que uma experiência transformacional na vida do jornalista. Rod tinha passado anos da sua vida a viajar pelo mundo, viveu nas maiores cidades americanas, frequentava os restaurantes da moda e escrevia críticas de filmes. "Fui apanhado numa cultura de ambição", contou à jornalista.

No fim de todo o sofrimento da irmã, o repórter admitiu que "a ideia de que somos auto-suficientes é um mito central na cultura americana". Eu trocaria "americana" por "global". Sim, com todos os desafios atuais quantos de nós nos sentimos de parte alguma? Gostamos de morar em Nova Iorque, Londres, Tóquio, Singapura, Dubai, mas nunca chegamos a pertencer a nenhum deles. Podemos ter amigos, fazer parte de comunidades locais, podemos assimilar os hábitos e costumes mas há sempre particularidades que nunca entenderemos. Só há um sítio onde isto deixa de fazer sentido. O sito onde crescemos.

Se fôssemos todos desprendidos, não teríamos amizades de anos como as que temos hoje, não estaríamos tantas vezes com a família, não teríamos vizinhos, comadres, aldeias históricas ou mesmo as tradições. Não teríamos sequer aquele "café" guardado na nossa memória. Hoje em dia inverteram-se os papéis, resistimos mais a ficar do que a ir.

Alguns investigadores do ramo da psicologia concluíram que o sentido de comunidade é mais benéfico para o bem-estar de cada um do que as suas próprias ambições. Por conexões sociais entenda-se: casamento, família, laços com os amigos e vizinhos, compromissos cívicos, laços profissionais e confiança social. Conheço mais pessoas humildes e felizes do que bem sucedidas e felizes. Coincidência? Não sei. Os habitantes da América Latina estão entre os povos mais felizes do mundo. Ironia?

Os murmuros, as risadas, as lágrimas, a mão que ajuda, o coração que abraça, o porto de abrigo. Há pessoas que nasceram para conseguir ignorá-los. Rod fez o mesmo durante anos investindo todo o seu tempo e força na sua brilhante carreira, mas percebeu que havia muito mais para além disso. Eu senti o mesmo no dia em que me vim embora de casa dos meus tios em França, após umas férias.

As lágrimas correram-me mesmo antes de chegar ao avião e tive de me conter muito quando chegou a hora da despedida. Só pensava no que eles perderam ao longo de mais de 30 anos por estarem fora das suas relações. "Foi uma necessidade", pensarão. Eu sei, mas não deixo de lamentar. Eles foram ambiciosos, a vida deu-lhes uma boa casa, bons filhos, etc… mas os seus filhos também foram ambiciosos e agora moram longe dos pais que, por sua vez, moram numa casa enorme sem grande convívio com os que os rodeiam. Estão por sua única e exclusiva conta.

Qual será o fardo mais duro de carregar? O de ter ido ou o de ter ficado? Para mim, ter ido será sempre um peso parecido com o de Sísifo, condenado a empurrar uma pedra por uma colina acima, que rolava sempre que chegava ao topo. Com isto, não quero aconselhar ninguém a ficar, mas sim a pensar muito bem antes de ir.

O artigo da revista The Atlantic na íntegra.