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Tudo a Meias

Histórias que chegam ao telhado. Agora também nas 'Netherlands'.

Mártires da Liberdade

por tudoameias, em 29.05.13
Adam Smith

 

A Rua Mártires da Liberdade, no Porto, faz-me ter sentimentos disfuncionais todos os dias. Quando por lá passo, ou a adoro ou a odeio. Há o cheiro desagradável de certas portas ou o cheiro a estufados e a arroz de polvo. Há uma mercearia fina e um albergue noturno para sem-abrigos. Um quiosque que vende peças em biscuit. Lojas vintage de fotografia e outras de mobílias obsoletas. Tem um passeio estreito e muito cocó de pombas e caninos. Velhinhas rabugentas e turistas boquiabertos com tamanha impulsividade. Tem pessoas a remexer no lixo (o que isso me faz confusão!), freaks e geeks. Tem gatos abandonados e gaivotas desnorteadas. Pessoas a falarem à janela de um lado para o outro da rua, um bar de rock e Tony Carreira nas alturas.

Edifícios belos e abandonados. Pessoas de chinelo e roupão, pessoas nuas (sim, dementes que por vezes despem as calças) e pessoas snobs. Autocarros que por vezes não passam por causa de carros mal estacionados. Muito trânsito. Já passo na Rua Mártires da Liberdade há anos, mas nunca tinha reparado que apesar de pequena consegue ter centenas de apontamentos diferentes. Nesta rua jaz a antiga sede do movimento Renascença Portuguesa que deu origem à revista Águia. O nome da rua, claro, faz homenagem aos liberais de 1829. Pensando bem, não acho que ela faça juz ao liberalismo, entenda-se o económico e social. Loja sim, loja não, à espera de ser trespassada, ou lojas que simplesmente já não abrem porque não há mais dinheiro para pagar para trabalhar.

Os que se viriam a mostrar ao longo dos anos contra o liberalismo numa dimensão internacional (não forçosamente socialistas) explicavam que a interdependência mundial, à medida que se tornava cada vez maior, poderia resultar na perda da soberania dos Estados. Ao mesmo tempo, para eles as democracias representavam uma ordem corrupta incapaz de saber governar bem e de forma justa. (Não quero com isto defender que há regimes melhores que as democracias mas, caramba, a corrupção até uma democracia consegue corroer.)

Eles estavam certos! A Mártires da Liberdade é isso mesmo, a metáfora de um liberalismo sôfrego, decadente e moribundo, e com maus governantes. Quando estudei o liberalismo na escola tinha uma ideia muito positiva acerca dele. Hoje, pelo que vejo nesta rua por onde passo todos os dias, o liberalismo tem tudo, menos um teto para todos os que lá moram. Eu pergunto-me: ter tudo é ter liberdade?

Na foto: Adam Smith.