Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Tudo a Meias

Histórias que chegam ao telhado. Agora também nas 'Netherlands'.

Carlos Sá és o meu herói

por tudoameias, em 24.07.13

 

Carlos Sá, na ultramaratona Badwater, na Califórnia, EUA

Foto: DAVID MCNEW/GETTY IMAGES NORTH AMERICA/AFP

 

Sempre pensei que a corrida era para gente maluca. Admito! Até ao dia em que comecei a correr e a gostar. A sério! Custa, claro, mas quando nos começamos a sentir bem ficamos imparáveis. As pernas já não doem tanto, o rabo mais empinado, os abs mais definidos e sobretudo a mente a funcionar melhor. Quando li a notícia de que Carlos Sá tinha ganho a ultramaratona mais difícil do mundo, no Vale da Morte, Califórnia, reformulei: realmente, a corrida é mesmo para malucos!

 

O que é que faz alguém correr 217 quilómetros sem parar, durante 24 horas e meia no ambiente mais hostil do planeta, com temperaturas de 50 graus? A superação, talvez…  Até terça-feira não sabia quem era Carlos Sá. Hoje admiro-o muito. Podia estar no conforto da sua secretária a trabalhar, no sofá a ver filmes e a comer pipocas, também podia estar numa praia paradisíaca esticado ao sol mesmo ali perto ou a viajar noutras condições menos hostis para o corpo e para a mente. O melhor de Carlos Sá é a sua força mental de querer sempre chegar mais longe. Sacrifícios, portanto! Não sei se ganha muito ou poucos prémios com as provas, mas a avaliar pelas suas declarações não me pareceu que isso fosse o mais importante. Eu sei que precisamos de dinheiro para viver, e isso é uma verdade inconveniente, mas parece-me que o Carlos Sá encontraria outras formas menos duras de ganhar dinheiro se não gostasse mesmo do que faz.

 

Gostava que os políticos do meu país pusessem os olhos neste atleta, mesmo que a nossa imprensa nem tivesse quase dado conta. (Senão, vejam as capas dos principais jornais no dia a seguir à vitória do ultramaratonista e descubram onde está o Carlos Sá.) Na política não tenho visto ninguém com tamanha resiliência. Cresci com a convicção de que a política era uma forma de chegar cada vez mais longe no desenvolvimento de uma sociedade, tendo em conta que no caminho há imensos obstáculos. Resiliência, portanto. Oh, que sonho parvo! Atualmente, parece que ninguém gosta de fazer política sob este desígnio. Um cargo executivo numa empresa, honorários elevados, reformas vitalícias, um espaço de comentário político, um estatuto que o cidadão comum raramente alcança. Os "desígnios" na política têm-se tornado cada vez mais obscuros ao longo dos anos. Ninguém abre o jogo nem diz para que cá está realmente. E por isso, não acredito em nenhum, absolutamente nenhum, político, da esquerda à direita. Acredito sim, nas pessoas que a pouco e pouco vão mudando o mundo com as suas pequenas ações, mesmo que encontrem pedras, montes, montanhas e Vales da Morte no caminho.

 

Para muitos, aparentemente correr uma ultramaratona é uma tremenda parvoíce, porque muitos de nós não terão sequer força de vontade para isso, e logo isso custa admitir. "Tenho mais que fazer!". Pois, mais valia que muitos políticos nesta fase crucial para o país abrissem o jogo. "Quero mesmo mudar o rumo do meu país?" Sim. Se não, e se têm mais que fazer, rua! Talvez tentarem treinar para a próxima ultramaratona com o Carlos Sá… Tinham a aprender que a resiliência a sério é uma qualidade que só os mais fortes alcançam porque até lá chegar é preciso correr muitos Vales da Morte. Os nossos políticos, na generalidade, correm muito pouco (os corredores da Assembleia e/ou das sedes de partidos) para atingir tal estado. A realidade é outra paisagem bem diferente. Carlos Sá és o meu herói.