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Tudo a Meias

Histórias que chegam ao telhado. Agora também nas 'Netherlands'.

Pelos cabelos

por tudoameias, em 24.09.13
Tesoura de cabeleireiro

Pelos cabelos fazemos tudo. Esperamos horas no cabeleireiro, lidamos com olhares indiscretos na direção das nossas malas, aguentamos tortuosos minutos debaixo dos secadores (sobretudo no verão), cortamos, não cortamos, pintamos mas fica uma desgraça e então tornamos a pintar. E no fim, pagamos.

 

Isto é tudo verdade para mim (e para quase todas as mulheres que conheço!) à exceção do pagamento. A minha mãe é cabeleireira, pelo que passei parte da minha infância no cabeleireiro a inventar penteados, pintar unhas, ouvir mexericos, ver clientes à turra e à massa para ver quem chegou primeiro. Intermináveis horas à espera que a mãe saísse, muitas vezes a dormir nas poltronas, chegar tarde para jantar porque aquela cliente não entende que o salão tem hora de fecho. Arrastar-me pela avenida abaixo a carregar os sacos da minha mãe de mochila às costas, a rezar para que aparecesse uma boleia. Tempos à espera da camioneta para ir para casa (sim, porque a minha mãe nunca conduziu). Oh… quantos cabelos cravados nos pés da minha mãe tive de tirar! ... 

 

Os cabeleireiros são um poço de histórias, mais do que o "Boa Tarde". E nem todas são más, acreditem. Aí fiquei a conhecer muito melhor a mulher portuguesa, nas suas variadas versões. Conheci histórias de vida. Por exemplo, a da peixeira que perdeu o marido e o filho em situações delicadas, a idosa que aos 85 anos não abria a porta a ninguém se não estivesse arranjada, fosse a que horas fosse, e até conheci a enfermeira que assistiu ao meu nascimento.

 

Histórias mirabolantes sobre as irmãs que se chatearam por causa de heranças, o marido que traiu a mulher com a melhor amiga, as explicações científicas da minha mãe sobre a essência das tintas… Argumentos romanescos riquíssimos. Muita gente assistiu ao meu crescimento no salão da minha mãe. "Oh estás tão grande, nem te estava a conhecer", "estás uma mulher", "andei contigo ao colo", "quando eras pequenina arrancaste-me muitos pêlos das pernas", "eras muito resmungona", etc.

 

É verdade que se cusca muito no cabeleireiro. Se disser a uma só, nos minutos a seguir já todas as clientes sabem. Mas não é isso que se passa também nos cafés que frequentamos, nas empresas onde trabalhamos, nos grupos onde nos inserimos?! É assim em todo o lado. Ás vezes fico com o cabeleireiro pelos cabelos. Mas depois tenho sempre a minha mãe que me pode dar um "jeitinho" em casa. Se há pessoa que sempre fez tudo pelos cabelos é a minha mãe. Os seus braços cansados que o digam. Este artigo é dedicado a ela. A Fatinha é a melhor cabeleireira do mundo. E não sou só eu que digo.