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Tudo a Meias

Histórias que chegam ao telhado. Agora também nas 'Netherlands'.

A Lisboa que temos

por tudoameias, em 28.09.13
Cemitério, religião, cruz

Coloquei um parêntesis na minha escrita fútil para refletir sobre algo que me perturba todos os dias. "Os tesourinhos deprimentes das autárquicas". Caros colegas jornalistas: 

 

Eu sei que muitos de vocês estão em Lisboa e o trabalho não nos dá muito tempo para reflexões éticas. Mas os tesourinhos deprimentes de que falam, alvo de chacota de jornalistas e consequentemente de alguns cidadãos que provavelmente habitam as cidades mais populosas são a realidade do país. (Há, claro, alguns que nem o bom senso explica.)

 

Dizia Pacheco Pereira na Quadratura do Círculo que estas eleições são as mais democráticas, com mais opções de escolha, em que o número de candidatos independentes é o maior na história da democracia (se não estou em erro). Eu moro no distrito do Porto, concelho de Valongo, freguesia de Campo (agora União das Freguesias de Campo e Sobrado). Sou campónia sim, aqui ainda há cabras que fogem do pasto, o carro do pão e do peixe, gente que vai a Valongo uma vez de vez em quando para tratar de assuntos mais sérios. Aqui pouca gente sabe o que quer isso dizer de 4,5% do défice, do crescimento do PIB ou da vitória da Merkel na Alemanha. E, aliás, estão-se pouco marimbando.

 

Sabem porquê? Porque este concelho tem outras realidades, algumas até curiosas. Segundo este site jeitoso, que vocês também podem usar, no meu concelho vive quase 1% da população portuguesa (0,89%) e existem mais mulheres do que homens (48 842). Em Valongo há 9374 pessoas que terminaram o ensino superior (12%), sendo que a maior fatia está no 1º ciclo (28,1%) e a 2ª maior no secundário (16,6%). A grande maioria da população (82,8%) trabalha no setor terciário. Em Valongo o desemprego é de 19,4%. No Porto é de 19,3%. Em Lisboa é de 12%.

 

É triste. Mas é o país que temos. O salário médio em Valongo é de 865 euros (inferior à média nacional), no Porto 1217, em Lisboa 1508. O poder de compra (86,8) é inferior à média nacional (100), muito inferior ao do Porto 178,8 e ainda mais baixo em relação a Lisboa (232,5). Percebem agora porque é que a maioria desta gente não quer saber disto para nada? Porque isto não as faz rever no dito país real de que muito falam os jornais. Estamos a melhorar? Estamos. Mas por favor, parem de gozar com o facto de um candidato defender a ampliação do cemitério porque isto é um problema para muitos sítios como Valongo ou Campo. Mais importante que a meta do défice.

 

Como explica, e bem, este post, estes temas têm muita importância nestes sítios. Bem ouvi por cá o alarido que foi com o novo cemitério. Os idosos, sobretudo, gostam de saber que têm a sua sepultura assegurada para a morte. Macabro? É a realidade! Obviamente que querem todos sair bem na fotografia, cortar a crise pela raiz, fazer discursos emotivos, hastear bandeiras, plantar árvores, ouvir desaforos, etc. Não creio que muito vá mudar em Valongo nas próximas eleições. A abstenção vai manter-se, provavelmente ganha o PS em Campo e o PSD em Valongo e tudo ficará mais ou menos na mesma como a lesma.

 

Pois aí está o problema. Deixei de me sentir importante para as estatísticas porque elas não me representam. Os jornais não me representam, os deputados não me representam, os autarcas não me representam, o centralismo muito menos me representa. E se há alguém que quer ajudar nos problemas que dizem realmente algo às pessoas, esse alguém é alvo de chacota. "Tal como no séc. XIX a burguesia urbana da lusitânia continua a fazer pouco de aldeões e vilões. Evoluiu pouco em quase 170 anos, eu acho...", acha o José Andrade e acho eu. Brilhante!

 

Na próxima segunda-feira os valonguenses vão levantar-se, lavar os dentes, vestir-se, tomar o pequeno-almoço, trabalhar, voltar a casa, tomar conta dos filhos, fazer o jantar, ver televisão ou navegar na net e dormir. Os cães ladram e a caravana passa. Não é o país, perdão… a Lisboa que temos?