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Tudo a Meias

Histórias que chegam ao telhado. Agora também nas 'Netherlands'.

MEC, também estou cheia de borlas!

por tudoameias, em 23.01.14
Notícias

Foto: Ambrozjo/SXC

Isto é tão absurdo que não consegui guardar só para mim mais de cinco minutos. Uma das minhas melhores amigas foi hoje a uma entrevista de emprego. Pediam um(a) jornalista para um suplemento de um jornal generalista que realizasse publirreportagens. Ok, não vamos discutir a ética da coisa até porque qual é o jornalista que consegue ser 100% fiel à sua ética hoje?! Sejamos práticos.

 

Adiante… a entrevista estava a correr muito bem, a V estava muito feliz com a proposta, contrato, despesas pagas pela empresa quando… o empregador se refere ao ordenado. "Ora portanto, em relação à remuneração pagamos o ordenado base de um jornalista que são 500 euros". Portanto, alguém que vai fazer deslocações a empresas no seu próprio carro (ao menos o gasóleo é pago pelo empregador), entrevistar pessoas, tirar fotos, editar textos e fotos, paginar, e, com jeito faz uns presses e gere redes sociais. Ah.. e também tira cafés e fotocópias! Sim, alguém proferiu esta frase tranquilamente a uma pessoa que aspira apenas a ter mais dinheiro na conta ao final do mês para pagar as despesas da casa. Como é que é? Como é que alguém diz isto sem se rir dele próprio? Treina-se no espelho?

 

Claro que a V não vai aceitar, até porque ganha atualmente um pouco mais. Será que fomos nós, jovens que só querem trabalhar e ter uma vida melhor (falo por mim e pelas minhas amigas) os responsáveis por este baixar de cabeça, o rabo entre as pernas, "o que tem de ser tem muita força", e "é melhor ganhar 500 que ganhar nenhum"?

 

Nunca me hei-de esquecer algo que um professor de faculdade que muito estimo me disse assim que acabei o curso. "Sejam humildes, mas não aceitem tudo, não se verguem demasiado, porque vamos dar razões para que nos tratem cada vez pior". Seis anos volvidos após esta afirmação… somos números na folha de Excel, percentagens de produtividade, tabelas salariais, e sei lá mais o quê e só me apetece dizer palavrões.

 

Eu resignei-me por momentos quando ouvi esta história. Sou um número. E vocês, que estão a ler, provavelmente também. O ideal seria que ninguém respondesse aos anúncios de emprego desta envergadura, três meses à experiência sem remuneração, salários base de 500 euros, material de tudo e mais alguma coisa e sobretudo muita vontade de trabalhar num estágio remunerado onde só se paga subsídio de alimentação e outras ajuditas de custo.  

 

Não tenham medo de boicotar essas ofertas porque os nossos pais vão estar lá sempre para nós, até para pagar os nossos funerais. Não queiram ser miseráveis, não tornem o próximo jornalista miserável ao aceitar uma proposta destas. Sejamos corajosos e saibamos dizer não quando tivermos a plena consciência de que estamos a aceitar uma profunda injustiça.

 

Se um dia eu for a próxima V numa cadeira de escritório à frente de alguém que me diga algo do género, não me chame eu Catarina Osório se não saio sem deixar recado. Façam o mesmo e saiam de cabeça erguida. Há sempre espaço para mais um prato em casa dos pais.

 

E por falar em borlas...

 

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