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Tudo a Meias

Histórias que chegam ao telhado. Agora também nas 'Netherlands'.

Orgulhosa por fora, insana por dentro

por tudoameias, em 09.07.15

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(PS: Eu não sou turista. É importante perceber que sou uma rapariga emancipada que vive entre Porto e Roterdão, e que faz viagens regulares há mais de um ano.)

 

Num dos domingos em que voltei para a Holanda, enquanto me preparava para sair dessa verdadeira rede de autocarros aéreos (o meu muito obrigada à Ryanair!) veio-me à cabeça uma questão: "Ufa, mais uma viagem em que chego ao destino". Também foi, mas não é sobre essa questão agoirenta que quero refletir. Enquanto procurava na carteira os meus óculos de sol de 10 euros mas que parecem de 1000, dei por mim a pensar porque será que saímos sempre do avião de com os ditos postos? Vá, admitam… Em grande! Faça chuva, sol, neve, granizo… chovam calhaus!

 

O meu ego vem literalmente do alto e a descarga de adrenalina é tanta que saio com aquela sensação de poder e ‘eu parto isto tudo’. Eu sinto-me como se fosse sair do avião e alguém estivesse lá em baixo (eu cá em cima) à espera do aceno real. "Eu aguentei mais uma vez, tenho o estômago a contorcer-se, as mãos a suar, as pernas tão trémulas que quando me levanto tenho a sensação de que vou tombar e as minhas tensões estão a 30. Raios me partam se não saio deste boeing composta". 

 

E é aqui que eu me sinto uma mulher de valor, em que realmente vale a pena apostar. Uma mulher que contraria absurdamente os seus medos e anseios, que viaja sozinha sem um braço amigo para beliscar ou rezar em conjunto. É insano o meu pavor mas eu vou sempre. Porque a saudade também é insana e eu prefiro a insanidade do medo a essa insanidade que é a saudade de felicidade. Desci degrau a degrau, não fossem as plataformas traírem-me e acabava-se a visão de rainha. (Uma perna para cada lado, óculos para o outro… não!) Desci as escadas da vaidade até ao terminal das bagagens confiante e segura, até porque o nariz já é empinado. E a minha bagagem foi a primeiríssima do tapete (lá está, rainha!).

 

O problema foi tirar 17,5 kg de mala com mochila às costas, carteirinha de madame e plataformas elevadas. (Sim, não é aconselhado viajar de sapatilhas: 1) não é cool porque não vai haver nenhuma aula de fitness dentro do avião apesar de às vezes os hospedeiros e hospedeiras tentarem; 2) Nunca irás fazer uma saída com elegância extrema mesmo que tenhas os óculos de sol mais classy do mundo;). Dito isto, as calças verde menta já estavam cheias de nódoas e às tantas dei por mim a desistir de tanta leveza e classicidade.

 

Desmontei-me ali mesmo, no terminal. Casaco na cintura, suor a escorrer pela testa, calças imundas, mochila nas costas já em pose corcunda e aquele bufar para todos os lados. Os óculos continuam nos olhos, porque o que os olhos não vêm como o orgulho engana e como o pavor sim, é INSANO!